As apostas online deixaram de ser apenas uma questão de entretenimento ou escolha individual. Elas se transformaram em um grave problema social, econômico e de saúde pública, com impactos diretos sobre o orçamento das famílias, a saúde mental da população e a vida de milhões de brasileiros e brasileiras.
É por isso que a campanha “Dê Block no Tigrinho”, lançada nas redes sociais no início de junho, cumpre um papel tão importante. O movimento reúne artistas, intelectuais e personalidades públicas para jogar luz sobre as consequências devastadoras do vício em jogos, como o endividamento em massa, a perda de controle financeiro e o sofrimento emocional provocado pelas chamadas bets.
Entre os artistas que aderiram à campanha estão Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marieta Severo, Djavan, Paulinho da Viola, Camila Pitanga, Claudia Abreu, Anitta, Letícia Sabatella, Emicida, Sandra de Sá e muitos outros nomes da cultura brasileira.
A mensagem é simples e urgente: é preciso dar um basta à falsa promessa de dinheiro fácil.
A falsa promessa de renda extra
As plataformas de apostas se espalharam pelo país com uma comunicação agressiva, muitas vezes associada à ideia de oportunidade, sorte, diversão e até “investimento”. Mas, na vida real, o que aparece para grande parte da população é outra coisa: dívidas, ansiedade, frustração e desorganização financeira.
Cerca de 25 milhões de CPFs ativos registram movimentações em plataformas de apostas no Brasil. Pesquisas recentes apontam que uma parcela significativa dos apostadores usa as bets na tentativa de conseguir uma “renda extra”. O dado é ainda mais preocupante quando se observa que pessoas que ganham até dois salários mínimos também recorrem a essas plataformas com essa justificativa.
Isso significa que recursos que deveriam ir para a alimentação, o aluguel, a escola das crianças, o lazer ou o pagamento de contas acabam sendo consumidos por uma lógica perigosa: a esperança de recuperar perdas apostando ainda mais.
Não se trata de moralismo. Trata-se de proteger famílias brasileiras de um mecanismo que explora vulnerabilidades sociais, econômicas e emocionais.
Uma epidemia silenciosa dentro dos lares
O vício em apostas não atinge apenas quem aposta. Ele atinge a família inteira.
Quando o dinheiro da casa desaparece na tela do celular, quem sofre são as mulheres, as crianças, os idosos e todos que dependem daquele orçamento. O problema se espalha de forma silenciosa, muitas vezes escondido por vergonha, culpa ou medo.
O presidente Lula tem chamado atenção para essa realidade. No Dia Internacional da Mulher, ele relacionou o vício em apostas à crise financeira dentro dos lares e aos impactos sobre as mulheres, afirmando que, embora muitos viciados sejam homens, a conta recai sobre elas. É o dinheiro da comida, do aluguel e da escola das crianças que desaparece.
Essa é uma dimensão fundamental do debate: as apostas online não podem ser tratadas apenas como um mercado. Elas precisam ser vistas também como um fator de risco social, familiar e de saúde mental.
O Brasil começou a regular, fiscalizar e combater abusos
Durante anos, muitas empresas atuaram a partir de paraísos fiscais, explorando o mercado brasileiro sem pagar impostos adequadamente e sem responder de forma clara aos órgãos de fiscalização.
Esse período começou a mudar com a regulamentação do setor. A Lei nº 14.790/2023 estabeleceu novas bases para a exploração das apostas de quota fixa e o Ministério da Fazenda passou a organizar regras por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas.
Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas podem operar nacionalmente no Brasil. As plataformas regulares devem seguir regras definidas pelo governo e utilizar domínios autorizados. Isso é essencial para separar o mercado regulado das chamadas bets ilegais.
Além disso, o Governo Federal vem intensificando o combate às plataformas irregulares. Já foram bloqueados mais de 50 mil domínios ilegais em cooperação com a Anatel, além de medidas para remover aplicativos e conteúdos que promovem apostas fora da regulamentação.
O governo também vem adotando mecanismos de asfixia financeira contra operadores ilegais, com ações para bloquear recursos, interromper transações e atingir o centro econômico das atividades clandestinas.
Autoexclusão: quando a própria pessoa pede ajuda para parar
Outro avanço importante foi a criação da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, disponibilizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Por meio dela, a pessoa pode solicitar o bloqueio do próprio acesso às plataformas autorizadas pelo governo federal.
Mais de 650 mil pedidos de autobloqueio já foram registrados. Esse número revela a gravidade do problema. São pessoas que reconheceram a perda de controle e buscaram uma forma de se proteger.
A autoexclusão não resolve sozinha a questão, mas é uma ferramenta importante de cuidado, prevenção e redução de danos. Ela mostra que o Estado precisa atuar para proteger a população, especialmente quando há risco de dependência, endividamento e sofrimento psíquico.
Publicidade de bets precisa ter limite
A publicidade das apostas online também precisa ser enfrentada com seriedade.
Não é aceitável que empresas vendam a ideia de ganho fácil, usem bônus abusivos para atrair apostadores ou direcionem propaganda a menores de idade. A sociedade brasileira não pode normalizar uma comunicação que transforma desespero financeiro em oportunidade de negócio.
O Conar e o Governo Federal já avançaram em restrições importantes. Mas ainda há muito a ser feito. É necessário coibir a publicidade predatória, ampliar a fiscalização e impedir que influenciadores, plataformas digitais e empresas lucrem com a vulnerabilidade da população.
A luta contra as bets ilegais é uma luta social
A campanha “Dê Block no Tigrinho” acerta ao chamar a atenção para aquilo que muitas famílias já sentem no dia a dia: as apostas online estão produzindo sofrimento real.
O enfrentamento a esse problema precisa combinar várias frentes: regulação, fiscalização, combate ao crime organizado, responsabilização das empresas, restrição à publicidade abusiva, educação financeira, cuidado em saúde mental e proteção às famílias endividadas.
Também é fundamental que programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, sejam aperfeiçoados para lidar com essa nova modalidade de endividamento, que cresce de forma rápida e atinge especialmente quem já vive com o orçamento apertado.
Proteger as famílias brasileiras deve vir antes do lucro das bets
A questão central é simples: nenhum mercado pode estar acima da dignidade das pessoas.
Quando uma atividade econômica compromete o dinheiro da alimentação, do aluguel e da escola das crianças, ela não pode ser tratada apenas como liberdade individual. Quando milhões de pessoas são empurradas para o endividamento e para o sofrimento mental, o Estado precisa agir.
As apostas online se tornaram uma epidemia silenciosa. E enfrentar esse problema é uma tarefa coletiva.
Por isso, a campanha “Dê Block no Tigrinho” merece apoio. Porque ela fala de saúde mental, de proteção social, de responsabilidade pública e de defesa das famílias brasileiras.
Esta é uma relevante luta social, que todos devemos apoiar.
Professora Bebel
Deputada Estadual – PT
Primeira Presidenta – licenciada – da APEOESP